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Entrevista
O Planeta Exposto
 
“... quando eu vi pela primeira vez as tais fotografias em que apareces inteira, porém lá não estavas nua, e sim coberta de nuvens.
Terra, Terra...”
Caetano Veloso

O planeta está exposto - sempre esteve -, pelo menos aos olhos do universo. Entre sua superfície e as estrelas não há barreiras visuais, contudo foi apenas na beirada do milênio passado que pudemos conhecer as feições que nossa morada tem quando vista do espaço sideral.

Até três séculos atrás os navegadores tateavam pela sua superfície usando mapas toscos, quando muito, ignorando até mesmo o que estava bem à sua frente. Embora pudessem calcular a distância vertical em relação ao equador – a latitude – não sabiam com precisão a distância horizontal em que se encontravam do ponto de partida – sua longitude –, e se destroçavam mortalmente em obstáculos inesperados.

Hoje o planeta se expõe a si próprio por meio dos sentidos e antenas artificiais de satélites que o orbitam. Qualquer ponto da terra que possa mirar o céu também pode ser reciprocamente observado com detalhes e a cores. Qualquer pessoa pode encomendar via internet e receber em seu computador uma foto atualizada e de alta definição de qualquer área do planeta, tirada de um satélite.

Mapas deixaram de ser instrumentos revelatórios, de alto valor intrínseco, em cujos primórdios serviam como carta de propriedade daqueles que proviam os meios para a sua elaboração. No terceiro milênio, tornaram-se uma forma de orientação visual abundante e variada para todos os que queiram conhecer melhor a sua vizinhança.

No passado, o espaço e o tempo eram as unidades essenciais para que o astrolábio e o cronômetro pudessem dar ao manuseador indicações sobre o seu exato lugar no mapa. Hoje o homem tambémdepende dos céus para navegar. Só que em lugar do sol e da hora certa existem satélites que emitem sinais calibrados em picossegundos por um relógio atômico, a um usuário de GPS, sigla de Global Positioning System, mas que poderia ser interpretado como Geo Posicionamento via Satélite.

O mais curioso deste sistema sofisticado é que ele lhe informa exatamente o seu lugar no mundo, sem que ele mesmo saiba onde você está.

Antigamente, um erro de cálculo significava um desvio de rota de várias milhas, que poderia custar a vida de muitos. Agora, um portador de um GPS de passeio não precisa ter conhecimento enciclopédico e nem paga nada para saber a cada instante sua posição, direção e velocidade com desvio máximo de poucos metros.

Os sistemas de navegação e posicionamento eletrônicos vão se popularizar cada vez mais e passarão a estar presentes, de forma quase que imperceptível, dentro de aparelhos celulares, relógios, câmeras fotográficas e até mesmo peças de vestuário.

Os aparelhos dedicados de GPS serão utilizados apenas por profissionais ou em atividades bem específicas.

A noção de que qualquer ponto do planeta tem um endereço único – suas coordenadas -, aliado a um dispositivo que possa registrá-lo fácil ou automaticamente, revelará lugares e caminhos que antes, apenas pessoas adestradas nas artes da aventura e localização com bússola e mapas tinham acesso.

O planeta ficou exposto. Não há mais como querer esconder lugares belos ou importantes dos olhares e da inevitável visitação das pessoas comuns. O tempo em que as descobertas geográficas ficavam no conhecimento e ao alcance de poucos privilegiados está terminando.

Nesta época em que a consciência ecológica é um item obrigatório em qualquer bagagem – mesmo porque é imponderável -, a exposição da natureza à observação escrupulosa de todos é algo que a tornará, com o tempo, melhor compreendida, cuidada e preservada.

 

André C. Gurgel
S 23º 33’ 51”   W 46º 41’ 41”
Julho de 2006